Flake normalmente significa “lasca”, “floco” ou um pequeno fragmento que se desprende de algo. Na expressão poética “a flake of your life”, Leonard Cohen sugere que o homem compartilhou com sua mulher apenas um pequeno pedaço ou uma parte íntima de sua vida, tornando a palavra ambígua e memorável.
Leonard Cohen, artista canadense, escreve esta canção como uma carta enviada às quatro da manhã, no fim de dezembro. O narrador pergunta ao destinatário se ele está bem e descreve sua vida em Nova York: “New York is cold, but I like where I’m living” [Nova York é fria, mas eu gosto de onde estou morando]. Do outro lado da carta, há uma casa pequena no deserto e a pergunta “Are you keeping some kind of record?” [Você está mantendo algum tipo de registro?]. Aqui, “record” pode significar anotar ou guardar uma memória do que aconteceu. Jane aparece com uma mecha de cabelo que recebeu daquele homem na noite em que ele planejava “go clear” [se libertar, ficar limpo ou começar de novo]. A expressão fica propositalmente aberta, como tantas coisas nessa carta.
O passado entre os dois é cheio de ciúme, traição e uma intimidade difícil de definir. O homem usa o famoso sobretudo azul rasgado no ombro, espera na estação por todos os trens e volta sem Lili Marlene, nome de uma personagem ou figura associada a uma canção de guerra. Depois, ele “treated my woman to a flake of your life” [ofereceu à minha mulher uma lasca da sua vida]: “flake” é literalmente uma lasca ou fragmento, uma imagem estranha para falar de algo íntimo que ele compartilhou com ela. O narrador o chama de “my brother, my killer” [meu irmão, meu assassino], mas termina com uma mistura inesperada de saudade e perdão: “I guess that I miss you, I guess I forgive you” [Acho que sinto sua falta, acho que perdoo você]. Até o agradecimento é amargo: ele diz que o outro tirou a tristeza dos olhos dela, algo que ele achava permanente. É uma carta para um rival, um amigo e quase um inimigo, tudo ao mesmo tempo.